Os oito quilômetros que separam a Igreja do Bonfim, na Colina Sagrada, da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, no Comércio, foram pequenos para tanta fé, cultura, alegria e oportunidade de melhorar a renda, nesta quinta-feira (12), durante a tradicional Lavagem do Bonfim. Baianos, turistas, autoridades, comerciantes, ambulantes, a maioria vestida de branco, levaram ao Senhor do Bonfim e a Oxalá - para os adeptos do candomblé - seu pedido pessoal e também um apelo em comum: paz.
“A Festa do Bonfim é um marco da Bahia. Esta é uma caminhada que muita gente de fora vem fazer e aproveita para pedir paz no mundo, saúde, trabalho, sucesso”, afirmou o governador Jaques Wagner, que integrou o cortejo da lavagem e, por volta das 9h, partiu da Conceição da Praia em direção à Colina Sagrada, acompanhado da primeira-dama, Fátima Mendonça, secretários de Estado e outras autoridades.
“A gente pede paz, mas tem que fazer a nossa parte. Acabei de lançar o programa de enfrentamento ao crack, vamos inaugurar mais bases comunitárias. Todo dia é dia de lutar contra o crime, o tráfico e as quadrilhas organizadas”, disse o governador. Ele enfatizou que a Bahia está vencendo a batalha contra o crime e promovendo a paz pedida a Oxalá. “O ano de 2011 terminou como o primeiro, em dez, em que o número de homicídios diminuiu na ordem de 6%. Eu espero que a gente consiga atingir índices ainda melhores”.
Mistura de fé
A turista polonesa Madalena Paladina, 24 anos, se divertiu em segurança e disse que se encantou com o pouco que conheceu da cultura baiana. “É a primeira vez que participo da festa e adorei. É ótimo. Este cortejo, de dia, é muito lindo. Há a presença de religiões diferentes, harmonia, tudo misturado. Parece sem problema, a Bahia é ótima”.
Para o secretário da Segurança Pública, Maurício Barbosa, além da parte religiosa e profana, que encantou a turista polonesa, a festa é também um dia de trabalho, para se garantir a segurança dos fiéis e demais participantes. “Temos 2,5 mil policiais espalhados pelo trajeto do percurso, quatro bases avançadas e uma delegacia funcionando”.
O secretário estadual da Comunicação, Robinson Almeida, avalia que a caminhada da Igreja da Conceição da Praia até o Bonfim representa uma síntese do que é o povo baiano. “É uma mistura de fé, de crenças, de alegria, de festa. Então, a Festa do Bonfim representa a Bahia. Nós pedimos, todo ano, muita saúde, esperança, energia, trabalho, inclusão social e que a vida seja bem melhor do que já é”.
Africanidade
A ministra da promoção da Igualdade Racial, Luiza Bairros, afirmou que a Festa do Bonfim é uma tradição extremamente importante. “Participar deste evento é se congraçar com todo o povo da Bahia, é juntar as energias por um ano de muita paz, produtivo e com muita igualdade”. Ela avalia que o evento significa a capacidade que os negros tiveram, na Bahia, “de fazer das manifestações que já existiam uma expressão também sua, com a marca da africanidade, da religiosidade afrobrasileira”.
A africanidade, à qual a ministra se refere, foi representada pelo presidente da Federação Nacional do Culto Afrobrasileiro, Aristides Mascarenhas, durante o tradicional culto ecumênico realizado no adro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, abrindo os festejos, com representantes de diversas religiões, como a católica, de matriz africana, batista, induísmo, entre outras. “A Festa do Senhor do Bonfim representa a alegria, representa Oxalá para o povo de santo. É uma forma de pedir proteção ao senhor que está lá, nos olhando”.
Adepta ao candomblé, a baiana Meiriane de Oliveira disse que há 35 anos veste as roupas tradicionais, pega seu vaso com água-de-cheiro, flores e arruda e festeja a lavagem da escadaria da Igreja do Bonfim. “Eu faço essa caminhada com muita fé porque acredito no pai Oxalá, na força transcendental, no mundo espiritual e nas religiões de matriz africana”.
Religiões de matriz africana não recorrem mais a outros credos
Para o secretário estadual da Promoção da Igualdade, Elias Sampaio, embora Oxalá e Senhor do Bonfim sejam a mesma energia, o sincretismo é uma coisa que já não tem mais espaço. “Foi uma estratégia dos africanos antigos, que foram escravizados e eram obrigados a professar a fé católica. Eles diziam que estavam professando a fé católica, mas veneravam os seus orixás”.
Segundo Sampaio, hoje não se fala mais em sincretismo. “Todos sabem que as religiões de matriz africana são genuínas e não têm nenhuma interferência das crenças judaicas cristãs. Os negros e as pessoas do candomblé vêm professar Oxalá, da nação ketu, e outras entidades correspondentes das nações de angola e gêge”.
Para o comércio, não interessa de qual religião o cliente seja. Santinhos, imagens, fitinhas e lembranças de todo tipo são artigos muito procurados por baianos e turistas. Beatriz do Sacramento, 25 anos, há três vendendo ‘suvenis’ próximo à Igreja, disse que tem fé no Senhor do Bonfim. “Baiano tem que ter fé”, afirma. Ela vê o evento também como uma oportunidade. “Tem muito movimento, o povo compra lembrancinha para levar para fora. Eu consigo aumentar as vendas em mais de 100%”.
Além da religiosidade e da alegria, o atleta Godofredo Gonçalves, 60 anos, tem no dia da Festa do Bonfim uma data esportiva e a oportunidade de mandar uma mensagem. Ele foi um dos 630 participantes da Corrida Sagrada, realizada há oito anos, que tem a largada antes do início da festa. “Eu corro com um sino pendurado e com uma corroa de arruda. É uma chance de deixar minha mensagem, protestar contra os desmatamentos, as queimadas e o maltrato aos animais”.